quinta-feira, 28 de outubro de 2010

Entrevista


Cinema: um processo coletivo


Carlos Baumgarten

Fotos: Divulgação
Quando o jovem cineasta gaúcho Filipe Matzembacher (foto), de 22 anos, resolveu migrar do curso de publicidade e propaganda para o de produção audiovisual, provavelmente, não deveria saber da contribuição e inspiração que traria para novos realizadores. Seu belíssimo filme Silêncio, Por Favor, que trata do universo das pessoas surdas, jogando o espectador para vivenciar essa realidade, foi o grande vencedor do Festival de Cinema Universitário da Bahia, que aconteceu entre os dias 14 e 18 de outubro, em Salvador.

Filipe iniciou suas atividades artísticas no teatro, tendo ingressado, paralelamente, na faculdade de Comunicação Social. Ele diz ter havido uma certa falta de coragem na sua opção inicial. “Atuei na área de publicidade e propaganda por alguns anos. Depois, transferi meu curso para Cinema, que era o meu desejo inicial, mas faltou-me coragem quando mais novo. Então, ingressei no curso de Produção Audiovisual da PUC-RS e, logo no primeiro semestre escrevi junto de Márcio Reolon (diretor de Depois da Pele) o mesmo filme, que no Festival, conquistou o terceiro lugar”, afirma o cineasta.

Apesar da pouca idade, já trabalhou em diversos filmes como roteirista e produtor. Atualmente, está finalizando o documentário Preservativo, dirigido em conjunto com Márcio Reolon e Samuel Telles, além da co-direção de Quando a Casa Cresce e Cria Limo¸ um filme de Filipe e Amanda Copstein. Os filmes realizados por essa turma, neste ano, participaram de festivais como PUTZ, Festival Internacional de Gramado, Mostra de Cinema de Ouro Preto¸ Festival Internacional do Primeiro Filme, Mostra de Cinema Brasileiro na Áustria, Festival de Cinema Ibero-Americano de Sergipe, Azores Short Film Festival 2010, em Portugal, MOSCA, Curta Canoa, Festival Brasileiro de Curtas Metragens do Rio de Janeiro, entre outros.

Mesmo envolvido na produção de um festival de cinema em Porto Alegre (CLOSE – confira o link www.somos.org/close), Filipe, gentilmente, concedeu esta rápida (e rica) entrevista ao blog Nicotina, Cafeína e Cinema, na qual ele debate conosco as novas tendências da sétima arte e o desafio para os nossos realizadores no atual contexto. Quando questionado individualmente sobre sua carreira, Filipe faz questão de destacar: “É complicado falar da minha pessoa isoladamente, pois sempre trabalhei junto com Márcio Reolon, Samuel Telles e, neste último ano, Caio Sehbe. Portanto, toda vitória adquirida por um de nossos filmes é uma vitória coletiva, como acreditamos que deve ser o cinema, um processo coletivo do início ao fim”.

Nicotina, Cafeína e Cinema - O que representa a conquista do primeiro lugar no Festival de Cinema Universitário da Bahia?

Filipe Matzembacher - Representa um reconhecimento muito bacana por parte de um júri que considero extremamente capacitado e que representa muito o espírito de um festival universitário ou, até mesmo, de um festival de cinema brasileiro na atual conjuntura do mercado. Ao trabalhar esse tema (do filme Silêncio, Por Favor), assumi um risco muito grande, e sabia disso. Fui desafiado a desistir dessas escolhas, mas persisti, pois percebi a necessidade de uma abordagem com esta narrativa. E conquistar o primeiro lugar, em um festival universitário no qual sua Mostra Competitiva não fica devendo em nada  a festivais com décadas de existência, só me deixa mais satisfeito. Já era uma vitória estar duplamente fazendo parte daquele universo fílmico – como co-roteirista e assistente de direção em Depois da Pele¸ de Márcio Reolon e Samuel Telles. Existem festivais que acrescentam ao evento um espírito próprio, seriedade, um respeito para com os realizadores e um posicionamento que se faz ímpar no mercado nacional e acredito, realmente, que o Festival de Cinema Universitário da Bahia se tornará cada vez mais um evento a se prestar atenção.

NCC - Fale um pouco do seu filme premiado. Do que trata? O que o inspirou a fazê-lo?

FM – O filme Silêncio, Por Favor surgiu de uma conversa com um grande amigo meu, professor de libras, sobre o universo do surdo e como é dispare a relação de imersão do surdo para o ouvinte e vice-versa. Depois de muito estudar o tema, decidi transmitir através de imagens e sons esse estranhamento que o surdo tem ao invadir o mundo ouvinte, pois é obrigado diariamente a conviver com esse mundo. Quis colocar o espectador não como receptor de um história e sim jogá-lo para dentro desse estranhamento. Então, na disciplina de Laboratório de Realização II – Ênfase em Documentário, propus a produção deste projeto. Logo de cara, meus colegas toparam embarcar nesse universo comigo e só tenho a agradecer a todos pelo apoio e ajuda nessa batalha. Quanto mais a equipe estudava o tema, mais fascinados ficávamos e isso se transmite muito na mensagem final do filme. Não gostaríamos de fazer um filme que abordasse o surdo como um coitado ou necessitado, mas como alguém, pertencente ao nosso universo e que, contudo, pertencia também a outro só dele.

NCC - Hoje em dia, qual o grau de dificuldade para se fazer cinema no Brasil?

FM - Esse assunto foi muito discutido nas oficinas que participamos no festival – outro diferencial genial do evento – e acredito que é unânime a dificuldade de se produzir material audiovisual no País. Contudo, diversos meios de produção, viabilização e projetos colaborativos têm sido criados para aumentar a massa fílmica brasileira e tendem a não parar. Cinema é uma arte cara e isso não pode ser assim. Acredito que quanto mais trabalharmos em um projeto, sem esquecer o fim lucrativo, mas que alie um viés artístico, que explore a demanda necessária, mais profissionais produzirão conteúdo nacional e o cinema brasileiro só tende a crescer. Este é um tema extenso e complicado de se colocar em poucas palavras, mas como eu mesmo disse na cerimônia, pensamento e atitudes positivas têm surgido.

NCC - Já que falamos de um País com dimensões continentais, com diferenças histórico-culturais tamanhas, gostaria que você falasse um pouco sobre como é fazer cinema no Rio Grande do Sul. Quais as principais dificuldades na sua região? Quais os desafios? E, se houver, quais seriam as facilidades para se produzir?

FM - Com certeza, existe uma diferença entre produzir no sul e no norte, mas não é tão grande. Como cinema no Brasil é bancado pelo Governo, quando o Governo não investe no setor, não há produção. É o que acontece em determinados momentos políticos no País. Contudo, acredito que tempos melhores virão. Creio que a arte deva ser bancada pelo governo e, ao mesmo tempo, tem que conseguir criar um mercado próprio. É o que todos buscamos.

NCC - Obviamente, explorar a cultura de raiz na produção cinematográfica é fundamental, mas não seria necessário haver mais uma “abertura” da regionalização do cinema?

FM - Acredito que devemos fazer filmes que reflitam nossos sentimentos, mundos, experiências, angústias, modos de pensamento e por aí vai. Portanto, um realizador brasileiro que não explora as características de sua terra em sua obra está perdendo uma grande oportunidade de valorizá-la. Contudo, não pode somente se debruçar a isso. A Coca-Cola tem um lema: pense mundialmente, haja localmente. Parece bobagem, mas me lembra muito da máxima de Roberto Mckee, que afirma que, ao desenvolver um roteiro, temos que criar conflitos, personagens, sentimentos globais, mas peculiaridades regionais, pois somaremos o mundial e o exótico, instigando mais as pessoas. Cinema brasileiro tem que ser brasileiro, mas não precisa ser um cinema bitolado.

"Acredito que devemos fazer filmes que reflitam nossos sentimentos, mundos, experiências, angústias, modos de pensamento..."


NCC - Qual a importância dos festivais, no sentido de promoção de filmes que estão fora do circuito comercial? Você consideraria uma vitrine para jovens cineastas, por exemplo?

FM - Com certeza. No modelo tradicional de curta-metragens, o festival é a principal janela. Claro que hoje pensamos e produzimos filmes já visando outras janelas, mas o festival, além de espaço de exibição, é espaço de discussão e amadurecimento. Por isso, esses eventos sempre estão repletos de jovens realizadores.

NCC - Você falou que está em fase de pré-produção de um festival em Porto Alegre. Pode nos adiantar do que se trata?

FM - É o CLOSE – FESTIVAL NACIONAL DE CINEMA DA DIVERSIDADE SEXUAL, projeto que a Avante Filmes (produtora que abri este ano) entra como apoiadora. O projeto é uma promoção do Grupo SOMOS – Comunicação, Saúde e Sexualidade (www.somos.org/close), e contará com diversos filmes de curta, média e longa-metragem, nacionais e internacionais, em mostras competitivas, informativas e paralelas. Eu e o Márcio (meu sócio e diretor do Depois da Pele) assinamos a Produção Executiva do Festival, que trará filmes muito interessantes e provocadores.

NCC - Vamos ampliar a conversa agora. Na sua opinião, qual seria o principal desafio do cinema brasileiro? Precisamos de mais investimento? Novas parcerias com empresas privadas, para não ficar dependendo exclusivamente de dinheiro público?

FM - Como falei, essa é uma questão muito ampla e muito difícil de se resumir em poucas palavras. Na realidade, trata-se de algumas mudanças em questões governamentais aliadas à mudança da mentalidade do mercado privado brasileiro e, principalmente dos realizadores brasileiros. Com certeza, o principal desafio do cinema brasileiro é a exibição e distribuição. Não que a produção esteja um “paraíso”. Contudo, é uma questão de repensar conceitos de sociedade, mercado e métodos de produção.

NCC - Você acha que o cinema de autor no Brasil tem espaço para conquistar nas salas comerciais, ou estariam restritas aos circuitos alternativos?

FM - Dificilmente o filme de autor invade a sala comercial. Mas, se formos pensar, nem o cinema norte-americano de autor invade a sala comercial da mesma maneira que Hollywood. A realidade é que o cinema de autor tem que encontrar seu espaço, mas não necessariamente precisa terminar com o cinema comercial. Ambos caminham lado a lado, construindo a massa fílmica de nosso País.

NCC - Você acha que o Brasil já está no caminho de produzir blockbuster ou ainda é preciso ter cautela?

FM - Nosso cinema já produz blockbuster há anos. Basta ver os recordes de bilheterias de determinados filmes. Contudo, não acredito que um País com tantas pessoas vivendo na miséria deva ter um universo de filmes com orçamentos gigantes. Isso seria mais uma dicotomia brasileira nada agradável. Acredito que esse modo de produção nunca ocorrerá até diminuirmos a desigualdade social.

NCC - E quanto às novas tecnologias? Você acha que cinema é cinema, independente do suporte?

FM - Essa é outra questão polêmica. A princípio sim, porém, mais importante que isso é a valorização do conteúdo narrativo audiovisual, adequado à janela que melhor se enquadra. Às vezes vemos tantos filmes fracos na tela do cinema que poderiam se tornar poderoso na tela de um celular e vice-versa. A principal função de um realizador é melhor aproveitar-se da tecnologia, e não ficar fugindo dela.

NCC - E o que fazer para superar as dificuldades de distribuição?

FM – Nossa! Essa é uma questão muito complicada, que tem que ser muito estudada. Poderia expressar algumas opiniões, mas, além de longas, existem pessoas que saberiam explorar esse tema com mais eloqüência que eu. A questão remete muito às anteriores, sobre o repensar mercado audiovisual e a função de cada um: realizador, mercado e Estado.

NCC - Por fim, qual o conselho que você dá para os aspirantes a cineastas?


FM - Cinema é arte e arte fala de sentimentos, sensações, acontecimentos e posicionamentos de alguém exposto para outros. Explorem isso. Façam o seu cinema da forma mais sincera possível. Pensem bem no que acreditam e abordem isso. E claro, vejam muitos filmes. Quanto maior o repertório, mais profunda será a sua linguagem cinematográfica. Imagens em movimento propiciam um mar de opções. Cabe a você direcioná-las para onde quer ir e se entregue. Honestidade é uma das primeiras coisas que você percebe ao assistir um filme.


"Toda vitória adquirida por um de nossos filmes é uma vitória coletiva, como acreditamos que deve ser o cinema, um processo coletivo do início ao fim”


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