sábado, 16 de outubro de 2010

Entrevista

“Você tem que criar o seu mercado”

Carlos Baumgarten

Publicitário por formação, Max Bittencourt logo buscou caminhos para a produção audiovisual. Pouco exerceu a função e, assim que concluiu a graduação, mudou-se para São Paulo, trabalhando como produtor de casting na O2 Filmes, produtora de Fernando Meireles. Meses depois, recebeu um convite da TV Globo e foi trabalhar como assistente de direção no programa humorístico Retrato Falado.

Foto: Divulgação
Max Bittencourt, idealizador
do festival.
Atuou em diversas produções audiovisuais durante um bom período. De volta a Salvador, entrou para o mundo acadêmico e há seis anos é professor universitário de produção audiovisual, coordenando na UniJorge um núcleo voltado para eventos sobre cinema e vídeo.

Esse extenso currículo deu ao professor Max Bittencourt embasamento e credibilidade para concretizar o sonho de realizar o 1º Festival de Cinema Universitário da Bahia, que acontece em Salvador até próximo dia 18. Em meio à correria com as atividades do evento, o professor concedeu uma entrevista ao blog Nicotina, Cafeína e Cinema, na qual apontou algumas tendências de linguagem cinematográfica, graças à disposição das novas tecnologias.

 “Hoje em dia, você tem que criar o seu mercado”, afirmou Max, destacando as variadas possibilidades de produção que se encontram nas ferramentas disponíveis. Entretanto, ele chama a atenção para um problema crucial no Brasil, inclusive de produtoras com alguns anos de estrada. “O problema está na distribuição”, disse. E é aí que eventos como o Festival de Cinema Universitário tornam-se uma grande alternativa para dar visibilidade a produções, principalmente de novos realizadores.

Nicotina, Cafeína e CinemaO senhor acha que, de fato, hoje, é mais fácil fazer cinema?

Max Bittencourt – As possibilidades abertas com as novas tecnologias são um fato. Hoje em dia, você tem muita gente captando imagens via celular, por exemplo. Isso é tão relevante, que, no festival, colocamos uma oficina com o tema Cinema por Celular, ministrada pelo artista visual Nacho Duran. Nós acreditamos nesse viés, e achamos muito positivo. Cinema é cinema desde que haja uma narrativa e uma história para contar, independente do suporte. No festival, temos filmes feitos com câmeras de vídeo digitais, câmeras fotográficas... O importante é mostrar a produção.

NCCQual o grande desafio para o cinema brasileiro independente?

MB – As novas tecnologias possibilitaram que muito mais pessoas conseguissem ter acesso à produção. Você compra uma câmera digital, consegue um programa de edição e finaliza o filme na sua própria casa. Mas, o grande problema, hoje, ainda é distribuição. A iniciativa de fazer o festival vem também com essa preocupação de gerar uma visibilidade, ao mesmo tempo em que damos o “caminho das pedras” para quem quer ir adiante. Temos, por exemplo, oficinas de novas formas de produção, oficinas de elaboração de projetos audiovisuais, uma oficina específica sobre distribuição de conteúdo de curta-metragem... É uma forma de fornecer uma base para o que o realizado precisa fazer para o seu filme acontecer.

NCCNa sua opinião, a graduação acadêmica em cinema e audiovisual seria imprescindível para a formação de cineastas?

MB – Não acho que exista nenhum problema em ser autodidata. O que a universidade vai fazer é oferecer todos os embasamentos para que você consiga explorar todas as vertentes. Mas o curso por si só não é suficiente. Você tem que ter criatividade, você tem que ser empreendedor e corajoso. E não deve desistir, porque fazer cinema no Brasil é difícil. É uma empreitada dura. Então, não acho que seja necessário fazer um curso superior para se tornar um cineasta. Mas, com certeza, na faculdade você vai aprender coisas que vão fazer com que você tenha um repertório cultural, o que é essencial para qualquer trabalho artístico.

NCCNo Brasil, quais seriam os caminhos alternativos aos editais para fazer um filme?

MB – Hoje, é muito comum as produtoras cinematográficas fazerem parcerias com emissoras de televisão. A HBO Brasil, por exemplo, tem uma série de produtos realizados em parcerias com produtoras de cinema e vídeo. É um processo interessante, pois existe aí um intercâmbio de linguagem. A televisão tem a sua linguagem específica e o cinema tem a sua linguagem específica. Você promover essa troca, colocando profissionais de cinema para trabalhar no ambiente televisivo, e vice-versa, é uma experiência positiva. Promover essas parcerias é uma maneira de fazer o cinema acontecer. E, obviamente, tem as iniciativas que possuem orçamentos mais seguros, como a Globo Filmes, por exemplo, que foi uma das produtoras que levou a linguagem televisiva para as telas do cinema. Enfim, parcerias com emissoras de TV e empresas privadas são vias alternativas, além da ferramenta internet nos dias de hoje. Você colocar o seu filme no Youtube é uma opção bem atual no quesito divulgação. O edital não deve ser descartado, pois é um caminho possível. Eu acho que, hoje em dia, você tem que criar o seu mercado. A partir daí, cada um descobre o que é que vai acontecer.

NCC O senhor citou o Youtube como alternativa para divulgação. Mas não acha que essa abertura em excesso possa causar uma banalização de produções ao redor do mundo?

MB – Obviamente, quando você coloca o Youtube à serviço da divulgação desses produtos, é preciso haver um critério para se identificar o que faz sentido ou não, pois tem muita coisa na rede que não quer dizer nada. Mas reafirmo que essas ferramentas são, sim, um caminho possível. Eu digo sempre: o que importa é a qualidade do produto. Se é bom, pode ser que aconteça. É claro que tem muita gente criando, produzindo e achando o seu espaço para exibição, o que mostra que a competição continua muito difícil. Você tem que estar preparado para fazer bons produtos, com criatividade e apresentar um diferencial.

NCCVamos finalizar falando sobre o 1º Festival de Cinema Universitário da Bahia. O que o motivou a idealizar esse projeto?

MB – Eu trabalho como professor de produção audiovisual há seis anos e sempre tive essa  vontade de fazer com que os trabalhos acadêmicos, as produções dos meus alunos, tivessem uma carreira além dos muros da universidade. Eram trabalhos de qualidade, nos quais eles se empenhavam para realizar. Mas, a carreira só durava até o fim do curso e eu ficava um pouco frustrado com isso. O festival veio com essa intenção, na verdade, de criar mais uma vitrine de exposição para esses trabalhos e incentivar a produção. Como falei, fazer filme no Brasil é difícil. Então, eu acho que abrir uma janela a mais é sempre importante. 

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