quinta-feira, 21 de outubro de 2010

É bom parar por aí


Carlos Baumgarten


Você sabe aquelas velhas reflexões, de que a vida é uma roda gigante e coisa e tal... Pois é. Pode valer para muita coisa na vida, principalmente para as pessoas públicas, cujo sucesso pode ser momentâneo. A arte de empreender é a arte de arriscar. No cinema, o conceito de empreendedorismo deve ser disseminado e, em muitos casos, é o que falta ao cinema brasileiro.

Inovar, buscar novas formas de produção e conseguir levar à tela um trabalho autoral que consiga atingir um grande público. Temos também os filmes puramente comerciais, que são feitos em busca, única e exclusivamente em busca do lucro. Vou sempre bater na tecla: o cinema é arte, mas também é atividade comercial. O lucro não DEVERIA ser o único objetivo dos produtores, mas, não só aqui, como em qualquer lugar do mundo, às vezes é.

Então, vêm as superproduções brasileiras. Para citar as mais recentes, Tropa de Elite 2 e Nosso Lar. O primeiro já é uma sequência, que até surpreendeu, mostrando conteúdo aliado a qualidade técnica. O segundo já tem propostas de produção de uma sequência. Nesse contexto, vale ressaltar que abrir uma franquia de um filme deve ser algo muito bem estudado.

Voltando à velha filosofia de que a vida é uma roda gigante, um dia você pode estar por cima e no outro por baixo, etc. e tal... se essa roda gigante pára, você fica no topo. Ou seja, às vezes, você atingir um patamar de excelência tal que, se você insisti no discurso, pode ser um tiro no pé, e todo aquele trabalho anterior caí no esquecimento.

O cinema é cheio desses exemplos. A franquia Batman pode ser uma boa lição. Fez um sucesso respeitável nos primeiro e segundo filmes, respectivamente em 1989 e 1992. Foi razoável em uma sequência de 1994. Por fim, foi enterrado em 1997, sendo ressuscitado em 2006 e colocado de volta ao topo em 2008. Se continuar de maneira constante, ou seja, sem inovações e apostando sempre no mesmo discurso, vai saturar, mais cedo ou mais tarde, e, de novo, cair no esquecimento. É preciso confiar na competência de Christopher Nolan para isso não acontecer.

No Brasil, fora os filmes de Xuxa, sequências de filmes da Globo têm tido bons resultados,  mas entre o público fiel da emissora carioca. Agora, ouvimos falar em um Tropa de Elite 3. Obviamente, isso é papo dos produtores e ainda está numa fase bem incipiente. Carece, inclusive, de aprovação do diretor José Padilha.

Isso é reflexo do sucesso estrondoso que o filme vem fazendo, batendo todos os recordes possíveis. Mas, fica aí o registro: pode ser o enterro de uma franquia de sucesso, se não forem tomadas as devidas cautelas. Tropa 1 foi um sucesso, dentro de toda aquele esquema de pirataria. Tropa 2, mais ainda. Deu lucro, agora querem fazer mais.

Reforçando: quem quer ser empreendedor, em qualquer área, inclusive no cinema, deve estar disposto a correr riscos. Fazer cinema, principalmente no Brasil, já é uma forma de assumir um grande risco. Mas, como um atleta consciente, é bom estudar e ver quando é hora de parar, pois no auge, ficaremos sempre na lembrança de um público fiel. Enterrados, cairemos no esquecimento. A matemática vale para todos. Não importa quantos positivos tenham, se tivermos um pequeno negativo, tudo se torna negativo. Tropa 3, diante do tema e do discurso, pode se tornar uma maçante barra forçada para enfiar goela abaixo do público. É aí também que nossa visão crítica deve entrar em ação. 

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