terça-feira, 5 de outubro de 2010

Crítica: Wall Street: O Dinheiro Nunca Dorme

O dinheiro nunca dorme, mas grandes expectativas podem desapontar

Carlos Baumgarten

Após 23 anos, Oliver Stone retoma Wall Street e o ambicioso Gordon Gekko, personagem vivido por Michael Douglas. O momento não poderia ser mais oportuno. A recente crise financeira originada nos Estados Unidos, a partir da chamada “bolha imobiliária”, aliada à especulação financeira foi um prato cheio para justificar a retomada do projeto.

Mas antes é preciso voltar no tempo. Em 1987, quando Stone lançou Wall Street: Poder e Cobiça, a realidade era outra. A efervescência financeira dos grandes centros, especialmente nos Estados Unidos, e a filosofia de vida materialista daquela época, sob o lema “quanto mais, melhor”, geraram o famoso bordão de Gordon Gekko (“ter ganância é certo“) entoada ao longo dessas duas décadas, talvez, como o maior símbolo de expressão capitalista.

No primeiro filme, Gekko manipula um jovem corretor da bolsa de valores de Nova Iorque (Buddy Fox, interpretado por Charlie Sheen), a partir de sua ambição em subir de vida, levando-o a praticar espionagem industrial para benefício próprio. Em Wall Street: O Dinheiro Nunca Dorme, o ganancioso Gekko arma uma nova estratégia, junto a um novato, porém promissor, no mercado de ações, diante de uma nova realidade econômica: a especulação financeira.

Como todo poder de uma economia de mercado, trata-se de um castelo de areia, que pode desmoronar num piscar de olhos. O filme de Stone traz vários paralelos entre os anos 80 e o período atual, a exemplo da cena inicial. Nos primeiros minutos, Gordon Gekko está deixando a prisão e recebendo todos os seus pertences, entre eles um celular dos primórdios, daqueles que pesavam mais do que um notebook. É como se o filme quisesse passar o recado de que os anos 80 acabaram, mas seus resquícios ainda prosseguem impregnados, de alguma forma, o que revela a manutenção da personalidade de Gekko.

Pois bem, após esse contexto, uma má notícia. Infelizmente, a expectativa pelo segundo Wall Street pode decepcionar muita gente. Como acontece em boa parte das franquias, a sequência, dificilmente, supera o “original”, digamos assim. E não é diferente com este novo trabalho de Stone, sendo que Wall Street: Poder e Cobiça é um dos maiores clássicos do cinema hollywodiano dos anos 80 e, talvez, o melhor filme de Oliver Stone, com uma crítica ácida e crua ao sistema capitalista.

Entretanto, Wall Street: O Dinheiro Nunca Dorme, mesmo tendo uma base oportuna para a sua realização, aponta num caminhar mais morno e se concentra, em determinados momentos, aos dramas familiares, aqueles detonados pelo dinheiro. As reviravoltas ao longo da projeção tentam dar um impulso na trama, mas não alcançam o resultado esperado. Os simbolismos e, como já foi dito, as referências aos anos 80, ficam como o maior atrativo do filme, além de uma rápida participação de Charlie Sheen, como Buddy Fox, mostrando, ao lado de Michael Douglas, que, realmente, o dinheiro nunca dorme.     

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