terça-feira, 12 de outubro de 2010

Crítica: Tropa de Elite 2

Tropa de Elite 2 tem discurso mais ácido

Carlos Baumgarten

A má fase pela qual passa o cinema nacional pode ser compensada com o novo filme de José Padilha, Tropa de Elite 2. O longa estreou na última sexta-feira, 8, e já bateu todos os recordes que lhe cabiam. Entretanto, diferentemente de Nosso Lar, que também foi um fenômeno nas bilheterias, o trabalho de Padilha é mais completo e consegue aliar a boa técnica, com conteúdo e um compromisso social.

Foto: Alexandre Lima
Tudo começou em 2007, com o lançamento extra-oficial de Tropa de Elite fora dos cinemas, em uma das mais ousadas ações da pirataria até hoje registradas. Antes de estrear nas salas, o longa de Padilha já fora visto por milhões de brasileiros, que adquiriram nos camelôs uma versão quase finalizada da obra. Mesmo assim, Tropa de Elite não decepcionou nas bilheterias, até porque o diretor fez algumas modificações, que não mudariam o rumo da trama, mas poderiam servir de atrativo para o público. Conquistou, inclusive o Urso de Prata em Berlim.

O que faz da sequência de Tropa de Elite um filme superior ao primeiro é o seu discurso mais ácido à corrupção, que envolve desde as pequenas cabeças da Polícia Militar do Rio até os grandes políticos que atuam na Assembleia e na Câmara Federal. Padilha reavalia o seu discurso apontado no primeiro filme, cuja matança de traficantes era justificada como o caminho para limpar os morros do Rio de Janeiro.

Agora, o coronel Nascimento descobre que “o buraco é mais embaixo”, e existe um esquema muito maior que comanda todo o sistema e faz dele apenas mais um instrumento a ser utilizado no processo. Lançado justamente depois do primeiro turno das eleições, Padilha não poupa palavras para transmitir um sentimento intrínseco ao povo brasileiro perante a nossa atual política.

                                                                  Foto: Alexandre Lima                                           
André Mattos como apresentador de
programa "popularesco".


Nascimento é promovido a subsecretário de segurança pública do Rio de Janeiro, passados 15 anos após a trama do primeiro filme. Personagens caricatos, desde políticos corruptos a apresentadores de programas policiais (como Datena), compõem a atmosfera do filme, que varia do humor ácido ao drama vivido nas favelas cariocas.   

O grande diferencial de Tropa de Elite é conseguir atrair um público maior e mais diversificado, graças a sua linguagem popular e também a aliança entre o conteúdo denso, polêmico e necessário à reflexão, com sequências de ação muito bem elaboradas, dignas de uma superprodução.

A câmera “nervosa” e em fortes closeups durante boa parte do filme são elementos essenciais para manter a tensão e prender a atenção do público. Temos ainda a atuação e a narração hipnóticas de Wagner Moura, sem dúvida, um dos pontos fundamentais para que a franquia continuasse atrativa.

Em meio a grandes decepções nos últimos anos, Tropa de Elite 2, que tinha tudo para se tornar apenas uma franquia em busca de dinheiro, surpreende e mostra que Padilha está, de fato em uma ótima fase. Ele reafirma o seu discurso social, apresentado em seus documentários Ônibus 174 (2002) e Garapa (2009), e mostra que é um dos grandes diretores de sua geração. Os números só vem a somar para esta fase do diretor: até o último domingo, mais de 1,25 milhão de espectadores assistiram ao filme, um recorde histórico.

E, dessa vez, um grande esquema anti-pirataria foi montado para que nenhuma versão inacabada de Tropa de Elite 2 vazasse antes de chegar aos cinemas. Padilha, inclusive, afirmou em entrevista ao UOL Cinema que contratou policiais de São Paulo, pois jamais entregaria seu filme à PM do Rio.   

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