domingo, 12 de setembro de 2010

O cinema como instrumento político


Carlos Baumgarten

Foi impossível passar pelo dia de ontem e não lembrar do fatídico acontecimento de nove anos atrás. Desde que aviões foram usados como instrumentos de terror nos Estados Unidos, o dia 11 de setembro deixou de ser apenas mais um dia na vida dos americanos, especialmente os novaiorquinos. Lembro-me de um dos pensamentos que me viearam à mente naquele dia: o 11 de setembro seria um prato cheio para roteiristas de Hollywood exaltarem o patriotismo exarcebado norte-americano.

É curioso refletir sobre o assunto, quando se pensa no retrospecto cinematográfico americano. O preconceito, de alguma forma, instalado em mensagens diretas ou subliminares, poderia voltar à tona nos filmes pós 11 de setembro. Nos anos 50 e 60, os faroestes passavam a ideia do herói americano combatendo os índios criminosos. Nos anos 80, filmes sanguinolentos mostravam heróis que caçavam terroristas do Oriente Médio ou ditadores comunistas.

Toda essa concepção começou a se alterar em meados dos anos 90 até os anos 2000. O acesso cada vez maior à informação e o desenvolvimento do cinema em outras partes do mundo acabaram, talvez, por dar ao cinema hollywoodiano um espaço para produções mais conscientes, politicamente engajadas e embasadas por fortes críticas à sociedade contemporânea.

Filmes como A Outra História Americana, Clube da Luta, Beleza Americana e até o ganhador do Oscar de 2006, Crash: No Limite, ilustram bem essa nova fase do cinema de Hollywood. Como se pode ver, mesmo após o 11 de setembro de 2001, os produtores, roteiristas e diretores não se entregaram diretamente à mentalidade paranoica instalada com os atentados.

Mas, é óbvio que essa data não iria passar em branco. Diversas produções surgiram após o acontecimento e podemos destacar algumas delas. Logo em 2002, um trabalho reuniu 11 diretores de diversas partes do mundo que contaram 11 histórias distinas envolvendo o 11 de setembro. Trata-se do filme 11 de Setembro. Entre os diretores, estavam Sean Penn e Alejandro González Iñarritu.

O ano de 2006 talvez tenha sido o mais produtivo nesse sentido. Oliver Stone apresentou o seu As Torres Gêmeas, que contou a história sob o ponto de vista dos bombeiros que ficaram presos nos escombros do World Trade Center e foram resgatados com vida. O diretor optou por seguir uma linha menos política e tratou de exaltar o tal “heroismo americano”, por meio de dois sobreviventes.

Entretanto, essa ideia da luta contra o terror seria a mais explorada neste ano. Dois filmes sobre o avião da United Air Lines que, provavelmente, iria ser jogado na Casa Branca, foram produzidos e, o pior, com títulos bem similares: Voo 93 e Voo United 93. O primeiro chegou a ser indicado a algumas estatuetas do Oscar, incluindo melhor diretor para Paul Greengrass. Nesses dois filmes, a proposta de combater o terror é altamente difundida entre os passageiros, que foram vistos como heróis americanos.

O lado político mais pesado, entretanto, fica por conta do polêmico Michael Moore e o seu Fahrenheit 11 de Setembro de 2004. A proposta do cineasta foi debater a linha política e os acontecimentos pré-atentados do governo Bush.

De uma forma ou de outra, o fato é que o horror sofrido pelos americanos tem base na sua política imperialista, que está presente em todas as suas vertentes sociais, desde o comércio até a disseminação de sua cultura, leia-se aí o suporte fundamental do cinema hollywoodiano.

E a verdade é que os americanos foram os primeiros a enteder o cinema, com o polêmico David W. Griffith e o seu O Nascimento de uma Nação (1915). Sua postura racista era difundida através de sua obra, sendo o filme citado o que mais ilustra essa ideia. Positivo ou não, o cinema é sim um forte instrumento político. A consciência social foi se aprimorando ao longo dos anos, com novas gerações de cineastas surgidas nos anos 60, 70 e 80.

Apesar de encontrarmos tendências negativas, não se pode negar que a era da informação veio contribuir com uma nova visão de cinema, inclusive dando oportunidades a pequenas produções alcançarem o mundo. O desejo é que as novas gerações, que ainda estão por vir, possam cada vez mais ter a consciência de que o cinema pode ser usado para disseminação de ideias e filosofias, mas que esse conceito seja utilizado de forma a trazer reflexões positivas para um todo e não para o pensamento retrógrado de se expandir uma política imperialista e arcaica. 

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