segunda-feira, 13 de setembro de 2010

Nosso Lar: o novo recordista do cinema nacional


Carlos Baumgarten

Antes de qualquer coisa, é preciso deixar claro que o comentário a seguir não pretende discorrer sobre a doutrina espírita ou o trabalho realizado pelo líder espiritual Chico Xavier. Trata-se apenas de um comentário sobre o filme Nosso Lar e todo o contexto que envolve a produção que, diga-se de passagem, além de ser o mais caro orçamento do cinema nacional dos últimos anos, vem batendo todos os recordes de bilheteria desde a sua estreia, no último dia 8.

Mas, qual seria a justificativa para tanto sucesso? Para quem não conhece, Nosso Lar é baseado na obra de Chico Xavier. Conta a história da jornada espiritual do médico André Luiz, que só após a morte descobre o sentido da vida. O livro teria sido psicografado por Chico Xavier, que seria o missionário no nosso plano para nos passar uma mensagem de conforto espiritual no plano astral.

Além de ser o favorito do público a concorrer ao Oscar do ano que vem (votado em uma enquete no site do Ministério da Cultura), o filme de Wagner de Assis, em cinco dias de projeção, já atraiu mais de um milhão de espectadores. E mesmo uma semana depois, o longa continua atraindo um grande público aos cinemas.

Apesar da superprodução orçada em cerca de R$ 20 milhões, com cenas muito bem elaboradas em termos técnicos, o filme de Assis deixa a desejar em alguns aspectos, principalmente no que concerne à direção de atores. O elenco, em boa parte da película, parece estar, de certa forma, travado ou desconfortável. Assim, o que vemos são atuações sem espontaneidade, o que prejudica a qualidade final da mensagem.

Todos nós sabemos que adaptar qualquer livro para levá-lo ao cinema não é tarefa fácil. Wagner de Assis, nesse ponto, fez um bom trabalho, executando bem a passagem de tempo e a narrativa. O único pecado do diretor e roteirista foi propor a participação de um narrador onipresente (o próprio André Luiz, como no livro), mas sem uma boa continuidade. Em outras palavras, o narrador não era tão onipresente quanto deveria ser.

Entretanto, o grande atrativo do filme é, sem dúvida, a obra de Chico Xavier em si. O líder espírita possui milhões de seguidores e simpatizantes, o que pode justificar a atração do grande público às salas de cinema. A obra de Chico Xavier trouxe o conforto espiritual para muitas pessoas e seu trabalho não era admirado unicamente por adeptos da religião espírita.

Portanto, muito mais do que o filme em si, o público vem em busca de conhecer um pouco
mais sobre a obra de Chico Xavier e ver um trabalho seu encenado na grande tela. Nosso Lar é um filme grandioso no aspecto de produção. Sua mensagem, obviamente, é uma mensagem transcrita da obra de Chico Xavier, mas está longe de ser uma produção referência em termos do cinema nacional.

Repito, não é intenção questionar a doutrina espírita ou a obra de Chico Xavier, mas sim analisar os aspectos de produção do filme Nosso Lar, bem como tentar compreender o fenômeno que se tornou o longa nas bilheterias. E, junto com ele, já temos o filme de Daniel Filho, Chico Xavier, que traça a biografia do líder espiritual (também um sucesso e, também, na enquete do Ministério da Cultura), e ainda As Mães de Chico Xavier, que deve chegar aos cinemas no ano que vem.

O último filme citado, dirigido por Halder Gomes, trás mais uma vez no elenco o ator Nelson Xavier (que interpretou Chico Xavier no longa de Daniel Filho) e conta a história de três mulheres que receberam cartas de seus filhos mortos, psicografadas pelo médium. Mais uma história que, provavelmente, atrairá a atenção do grande público.

O que intriga é como tantos filmes sobre o líder Chico Xavier estão sendo lançados em tão curto espaço de tempo. Seria uma forma de abrir uma franquia oportunista sobre o trabalho do médium ou apenas artistas admiradores de sua obra querendo compartilhá-la com o grande público? Honestamente, essa é uma pergunta que nem as bilheterias podem responder.

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