domingo, 19 de setembro de 2010

Especial

“Nós que nos amávamos tanto”

Carlos Baumgarten

É uma construção discreta em meio ao tradicional bairro da Barra, em Salvador. Com escadas estreitas, mas um ambiente extremamente aconchegante, adentramos a um espaço que nos faz reviver o tempo romântico do cinema de Hollywood. Fomos recebido pelo carismático (e dinâmico) Roberto Cezinbra, dentista por formação e artista por paixão, diretor do Teatro da Barra.

Há cinco anos, Roberto (à esquerda na foto), junto com alguns amigos, decidiu dar início a um projeto para viver o nostalgico do cinema. Assim surgiu o Cine Nostalgia, que exibe, na maior parte de sua programção, filmes da era de ouro de Hollywood. O acervo utilizado é do próprio teatro. Porém, com o passar dos anos e a procura do público, Roberto passou a encomendar outros títulos para comporem a programação.

“O nosso espaço cultural existe desde 2001. Nós apresentávamos espetáculos teatrais infantis aos finais de semana, mas decidimos mudar. Já que sou apaixonado por cinema, surgiu a ideia de abrirmos o espaço para exibição de filmes clássicos”, diz. Segundo Roberto, foi uma forma de atrair o público nos finais de semana. Entretanto, o sucesso foi tamanho, que as sessões passaram a ser realizadas às quintas, sábados e domingos. Depois, as sextas-feiras entraram no circuito.

Roberto garante que o público que frequenta o Cine Nostalgia é diversificado. “Temos pessoas de diversas faixas-etárias, apesar de haver uma predominância da terceira idade”, afirma. Ele revela que se trata de um público fiel e que,  muitas vezes, pode reviver os tempos do cinema que não retornam mais. “Trata-se de uma época romântica, na qual a palavra tinha mais força do que a técnica. Hoje em dia, é ao contrário: a técnica tem mais força que a palavra”, comenta.

Roberto e o amigo Nivaldo, juntos 
pelo cinema    

À medida que desenvolvemos a conversa, as pessoas vão chegando ao espçao e, entre um cumprimento e outro ao seu público, Roberto destaca que o programa no Cine Nostalgia acaba virando uma alternativa para muita gente. “O pessoal da terceira idade encontra um local para se entreter junto aos clássicos. Muita gente, também, vem com a família assistir aos filmes. Às vezes, temos aqui filhos, netos, gerações unidas pelo cinema”, aponta.

Roberto resslata que o seu público é bastante exigente. “É diversificado, tem um atrativo maior para a terceira idade, mas, a verdade, é que as pessoas que frenquentam aqui são bem exigentes”, diz. Ele cita uma pesquisa do Instituto de Cinema de Paris, que pode ser aplicada ao seu espaço. De acordo com a pesquisa o fator principal de atração de um determinado público ao cinema é o ator, seguido pelo título do filme e pelo gênero.

“Às vezes, passamos grandes clássicos, com tramas sensacionais, mas por do título, do gênero e, principalmente, do artista que está à frente do trabalho, as pessoas deixam de conferir a projeção”, conta. Roberto revela situações, como alguns frenquentadores que possuem certas resistências, como deixar de ver um filme por seu protagonista ter sido um homossexual assumido.

O Cine Nostalgia, de fato, revive aquela época áurea de Hollywood, mas Roberto chama a atenção para o fato de que, em determinadas programações, ele inclui filmes mais recentes. Na semana anterior a esta matéria, por exemplo, foi exibido o filme As Pontes de Madson (1995), de Clint Eastwood. “O ontem já é nostalgia, não é verdade? Então, às vezes, não precisamos ir tão longe para resgatar obras que valem a pena ser conferida”.

Apesar do maior números de títulos serem de Hollywood, não é uma regra do Cine Nostalgia prestigiar apenas produções estrangeiras. “Já passamos filmes nacionais e temos ainda a pretensão de passar outros títulos do nosso cinema. O público, inclusive, solicita a nós filmes de seu interesse. Algumas vezes, também, reprisamos filmes para quem quiser conferir mais uma vez”, explica.

A paixão de Roberto pelo cinema começou cedo. Na cidade de Muritiba, no recôncavo baiano, ele lembra da infância em que passava nas salas de cinema e revela um fato curioso. “Tinha um juíz na nossa cidade que não permitia que os jovens assistissem a filmes com beijos na boca, pois ele achava que, de alguma forma, aquilo poderia estimular a sexualidade entre os jovens”, conta. “Só podíamos ver filmes de guerra ou de faroeste”, complementa.

Roberto foi crescendo, com ele, a paixão pelas artes ganhavam cada vez mais força. Não é a toa que, além de dentista, ele tem formação em teatro, tendo, inclusive, dirigido alguns espetáculos.

Ao lado do amigo, Nivaldo Teixeira (à direita na foto), um dos que comprou a empreitada do Cine Nostalgia e apoia o projeto, Roberto faz mais do que exibir filmes. Ele declara a sua paixão pelo cinema, e mais, ele presta uma homenagem à sétima arte, em um período regado por grandes estrelas, onde toda a força encontrava-se na palavra. "Alguns achavam que não poderia dar certo. Mas, estamos indo muito bem", diz Nivaldo

Com o fluir da conversa, cada vez mais pessoas chegavam ao teatro. A sessão já estava para começar e o filme do dia era Palavras ao Vento (1956). Na programação, até o final do mês, ainda seguem: Primavera (1937), no dia 23, O Trem (1964), no dia 24, Agonia e Êxtase (1958), nos dias 25 e 26, e Deus Sabe Quanto Amei  (1958), no dia 30.


O Cine Nostalgia funciona no Teatro da Barra, em Salvador, na Rua Marquês de Caravelas. O valor do ingresso é R$ 6 e as sessões são de quinta à domingo. A partir de agora, você pode conferir a programação do projeto no blog Nicotina, Cafeína e Cinema. Aguarde o mês de outubro e aproveite para conferir grandes clássicos da cinematografia mundial.

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