sexta-feira, 17 de setembro de 2010

Crítica - B1: Tenório em Pequim

Sem limites

Carlos Baumgarten

Quantas vezes na vida nós aprendemos a ganhar e a perder? Para muita gente, a derrota é algo inaceitável, ainda mais quando você tem todos os aparatos a sua disposição. Para um atleta, a vitória pode ser algo ainda mais necessário. Mas, até que ponto os limites devem ser superados? O judoca Antônio Tenório nos ensina que ganhar ou perder não é o mais importante, mas sim o aprendizado que você adquire. E ele, nós podemos dizer, é uma pessoa que não possui limites.

A trajetória deste atleta pode ser conferida no documentário B1: Tenório em Pequim (2010), dos diretores Felipe Braga e Eduardo Hunter Moura, que estreou nos cinemas na última sexta-feira. De forma crua, porém hipnotizante, como caracterizou Karina Rotenstein, do Hot Docs 2010, os dois cineastas conduzem a trajetória de Tenório, que é cego, desde a sua participação em campeonatos nacionais até a conquista do ouro na Paraolimpíada de Pequim em 2008. O código, B1, refere-se ao grau de deficiência visual do atleta, que nesse caso é total.

Ficamos atentos aos detalhes trazidos pela direção de Braga e Moura, que consegue captar bem a atmosfera do pré-confronto, passando por todos os altos e baixos que fazem parte de uma competição. Mas só da competição, pois Tenório dá um exemplo de vida ao se mostrar disposto a lutar pelo que é de direito, a sua dignidade enquanto atleta. Ele busca seu aprendizado, inclusive, em campeonatos regulares, ou seja, com as regras impostar para atletas sem nenhum tipo de necessidade especial.

Em uma cena curiosa, um grande judoca brasileiro recusa confrontar-se com Tenório, sem dar grandes justificativas. Tenório dá a dele: “Se ele ganha, ganhou de um ceguinho. Se ele perde, perdeu de um ceguinho”. Mas nada disso impediu que o atleta seguisse em frente com seus treinamentos pesados e determinados a conquistar o ponto mais alto de sua glória, sem tirar os pés do chão.

Todo esse sentimento é captado pelas câmeras dos dois diretores, que filmaram no Brasil, na França e em Pequim. Apoiando-se nos conceitos do Cinema Verdade, eles procuram não interferir no cotidiano do atleta, tornando o trabalho ainda mais autêntico. Sem dramalhões pesados ou esforços recompensados por conta de uma necessidade especial, B1... é um filme que vai mudar o nosso conceito de deficiência.

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