terça-feira, 28 de setembro de 2010

As tendências do Brasil


Carlos Baumgarten

Muito se criticou a decisão do Ministério da Cultura (Minc) ao escolher o filme Lula: O Filho do Brasil como o mais “preparado” para tentar uma vaga entre os finalistas ao Oscar do ano que vem.  De um lado, os adeptos e simpatizantes do espiritismo dizem que Nosso Lar, além de ter a preferência popular (comprovada em enquete do próprio Minc), traz uma excelência técnica aliada a uma mensagem esperançosa para toda a humanidade. Do outro, há uma enorme tendência a se considerar questões políticas na escolha do filme.

Honestamente, não tive interesse em conferir o filme de Fábio Barreto. E não foi por questões políticas, mas, simplesmente, pareceu-me um dramalhão exagerado de barra forçosa. Puro preconceito? Pode ser. Mas, a questão da escolha por parte da “cúpula” de especialistas não me surpreende. Independente de aceitação pública (o filme de Barreto não foi bem nas bilheterias) ou de qualidade técnica, é óbvio que o mito da imparcialidade, que já é MITO, vai passar longe por aí

Vejam do início. Luiz Carlos Barreto é um dos nomes mais influentes do cinema nacional. Produtor renomado no meio, foi um dos que declarou que queria exportar o filme sobre o nosso presidente, com o único objetivo de lucrar, e sem interesses políticos. Lula: O Filme do Brasil teve que buscar recursos de outras fontes, que não fosse o governo, afinal, seria extremamente tendencioso o projeto ser aprovado em edital público, retratando a vida de um presidente em exercício.

Os ingênuos acreditaram que isso seria suficiente. Mas, a verdade é que não há nada de coincidência ou inocência. Lançar um filme no último ano de governo de um presidente sobre o próprio, mesmo que se utilizem da justificativa de que o longa aborda a trajetória do presidente até o início de sua carreira de sindicalista, nada mais é do que uma desculpa esfarrapada para tentar evitar o inevitável: a indignação do povo brasileiro.

Fora essas tendências, temos, como já foi dito, a influência da família Barreto no cinema nacional, o que torna a regra do QI e do poder também válida no campo das artes. E olhem mais: Fábio Barreto, diretor de Lula..., foi indicado em 1994 teve o seu O Quatrilho indicado em 1994 ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro. Em 1997, o irmão, Bruno, teve o seu O Que é Isso, Companheiro? indicado na categoria. Nenhum dos dois ganhou, mas sabemos o peso e a exposição que significa a nomeação à premiação de Hollywood.

Uma década depois, Bruno Barreto, irmão de Fábio e ambos filhos de Luiz Carlos, teve mais um filme escolhido pelo Minc para tentar a vaga no Oscar. Em 2008, o filme Última Parada 174 tentou a vaga, mas, obviamente, não passou, afinal, trata-se de uma obra perdida, que podia ter sido muito melhor explorada pela riqueza de seu conteúdo.

Repare a trajetória: governos diferentes, mas escolhas similares. Talvez, a ideia seja apenas andar na onda, ou seja, próximo ao poder. Faça um filme que agrade o seu líder e você terá muitas chances de ter alguns privilégios. Não se pode julgar, mas vamos aqui carimbar um leve julgamento: é quase certo que a escolha do Minc foi influenciada por questões políticas e, mais ainda, pelo período eleitoreiro.

Não questiono o talento da família Barreto em fazer cinema, afinal, eles estão há anos nesse processo, nem estou aqui para falar do Governo Lula. Mas, não se pode deixar de atentar para as tendências do nosso País, em levar as questões políticas e religiosas acima dos critérios de neutralidade. Óbvio que sempre haverá tendências, mas não se pode fazer da máquina pública uma atração de circo, onde os palhaços, por vezes, somos nós cidadãos.

Quanto aos entristecidos pela não-escolha de Nosso Lar para disputar uma vaga na premiação, um consolo: é bem provável que o filme não passasse para a fase final da disputa, pois, efeitos especiais e conteúdos fortemente restritos tendem a não corresponder a expectativa de especialistas. Foi o que aconteceu: iludiram o povo, colocando-os como especialistas de cinema, para depois apenas iniciar um incêndio maior, deixando os “entendidos” tomarem a decisão final.   

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